Eu me lembro de que quando eu era adolescente, simplesmente não conseguia pegar cedo no sono à noite - sempre fui meio coruja. Naquela época, ficava assistindo à tv de madrugada e passava o Cine Club. Foi assim que assisti ao filme A morte em Veneza pela primeira vez.O mais engraçado foi que, quando fiz faculdade, acabei reencontrando essa obra no último ano do curso, num estudo do livro de Thomas Mann que baseou o filme.
O enredo é difícil de resumir - ou melhor, não se presta muito a isso, porque na verdade o que conta são os detalhes e a simbologia que T. Mann coloca na novela. Em linhas gerais, trata da história de um artista (Gustav von Aschenbach) que faz uma viagem a Veneza e, lá, acaba encontrando um jovem que sintetiza todo ideal de perfeição estética que o artista sempre imaginou - e que acaba por levá-lo a desenvolver um fascínio pela figura do menino.

As interpretações são muitas e são apaixonadas. Há os vêm do lado de cá e dizem que isso é a coisa mais gay do mundo; e há os que vêm do lado de lá e dizem que falar isso sobre a obra é comer a casca e jogar a fruta fora - e desandam a associar o texto à história da Alemanha contemporânea. Na minha modesta opinião, ignorar qualquer desses dois lados da obra é perder muito. A graça de uma visão do enredo é justamente a presença da outra. Fico com as duas.

Deixando essas digressões de lado, o que realmente assusta na obra é que a cidade de Veneza, para nós o símbolo do romantismo, com seus gondoleiros e canais, está sendo assolada por uma peste. O mal é ocultado pelas autoridades, que temem uma debanda dos turistas aristocratas numa cidade de veraneio. Mas o mal ronda a cidade, que a todo momento é desinfectada.
A Veneza que é mostrada é uma cidade que apodrece, com a água de seus canais repleta de doenças e morte.
Em meio a tudo isso, o deslumbramento de Aschenbach não consegue deixá-lo partir, embora ele consiga perceber cada vez mais a morte se espalhando pelos cantos da cidade. Os turistas não se dão conta - desfrutam praia e lazer, enquanto a peste se alastra de forma oculta.
Esses dias na escola, a sensação que tive foi exatamente assim. Um bando de crianças e também adultos vivendo despretensiosamente seu dia a dia, com o cheiro de álcool nas mãos e a conversa de corredores sobre um espirro, uma febre, uma morte...
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